Mau Género: entre o Real e a Banda Desenhada

Paul e Louise conhecem-se, apaixonam-se e pouco depois casam-se. Mas a Primeira Guerra Mundial irrompe e Paul é forçado a separar-se de Louise para ir combater. Nas trincheiras, Paul vive um verdadeiro inferno e deseja escapar de lá a qualquer custo, acabando por desertar e reencontrar a mulher em Paris. Está são e salvo, mas condenado a permanecer escondido num quarto de hotel. Para pôr fim à sua clandestinidade, Paul encontra uma solução: mudar de identidade, travestindo-se. A partir desse momento passará a chamar-se Suzanne. Entre a confusão da mudança de género e o trauma da guerra, o casal terá um destino extraordinário. Esta é a súmula de uma história real notável que a autora Chloé Cruchaudet passou ao papel com especial sensibilidade narrativa e gráfica, agora disponível para os leitores portugueses.

 

 

O Real, sempre melhor que a Ficção

Cruchaudet encontrou Paul e Louise num livro escrito por dois historiadores (La Garçonne et l’Assassin de Danièle Voldman e Fabrice Virgili). Mas uma história verídica contada num com rigor num registo de “caso de polícia”, com contornos criminais, é transformada por Chloé numa obra quase teatral, dramatúrgica, com personagens extraordinariamente fortes.  Paul e Louise são parte da gente comum de Paris, um casal que luta todas as semanas para pagar a renda e alimentar-se, num cenário de penúria das classes mais desfavorecidas. E é pela pena de Cruchaudet – na escrita e no desenho em tom impressionista – que esta narrativa ganha uma força de romance, de história universal com a qual só podemos empatizar. Mesmo tratando-se de figuras com arestas, defeitos. Ou precisamente por causa disso.

Como pano de fundo, mas ao ponto de tornar-se uma das personagens principais, está a I Guerra Mundial, na qual também esteve presente o Corpo Expedicionário Português, em defesa dos seus aliados britânicos e franceses. Uma guerra que seria “para acabar com todas as guerras”, chavão que estaria sempre condenado a fracassar, na qual milhões de jovens europeus de carne e osso, como Paul, perderam a vida. Nos países mais afetados pelo conflito, esta memória está muito presente – como é o caso de França – e a banda desenhada tem assumido um papel memorialístico desta época.  Mau Género acaba por ser também uma espécie de tributo, mas com outro alcance: a Guerra não condiciona apenas a vida de Paul, e dos seus companheiros de armas; ela acaba por condicionar as esperanças e a psique de todo um país, convidando ao escapismo que os protagonistas tendem a abraçar. Uma forma de se libertarem das garras mentais e físicas de um conflito que chegou a ser apocalíptico. E vão, com demasiados mortos por cada metro quadrado de terreno conquistado.

 

 

A receção crítica e popular

Mau Género, de Chloé Cruchaudet, começou desde cedo a atrair a atenção do público e da crítica especializada da banda desenhada de assinatura franco-belga. Sinal disso mesmo foi a conquista do Prémio Comics ACBD da Crítica, atribuído pela Associação francesa de Críticos e Jornalistas de Banda Desenhada. No festival europeu mais importante deste género literário, o de Angoulême, conquistaria também o Prémio do Público. E em Nápoles, no Festival de Banda Desenhada, conquistaria o conhecido Prémio Micheluzzi. Desde então, a originalidade da história, à qual Chloé acrescentou dinâmicas da ficção, a extrema sensibilidade narrativa e uma paleta de cores escolhida com mestria, levaram este Mau Género a cada vez mais públicos, chegando agora às livrarias portuguesas. Precisamente numa época em que género e identidades estão mais na ordem do dia do que nunca. Por estes dias decorre o AMADORA BD – Festival Internacional de Banda Desenhada, no qual Chloé é uma das convidadas de relevo da edição 2023, chegando assim a ainda mais leitores. Paul, o desertor sagaz, haveria de ficar satisfeito.

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