«Sempre me intrigaram os papéis performativos de ser mulher»: entrevista a Ashley Audrain, autora de Rumores

Xavier, de dez anos, está em coma no hospital depois de ter caído da janela do seu quarto a meio da noite. Os vizinhos estão em choque, e os rumores sobre o que poderá ter acontecido naquela terrível noite vão-se multiplicando: terá sido acidente? Poderá a mãe, cujo acesso explosivo de raiva com Xavier todos testemunharam meses antes, ter sido de alguma forma responsável?

Rumores, novo livro de Ashley Audrain, explora os sacrifícios silenciosos da maternidade e as intuições que silenciamos. Conversámos com a autora.

 

1. Comecemos pelo título: Rumores. O que inspirou este título e de onde surgiu a premissa para este livro?

A primeira vez que me deparei com o conceito de «rumores» foi num episódio do podcast de Oprah, em que ela entrevista a sua melhor amiga, Gayle King. A certa altura, falam dos «rumores» interiores que Gayle tentara calar durante muito tempo sobre o seu casamento, até que deixou de ser uma opção porque um dia chegou a casa e encontrou o marido com outra mulher. É claro que estes «rumores» interiores podem alertar-nos em relação a todas as facetas da vida. Este saber instintivo — especialmente aquele que não se quer ter – é uma experiência com a qual muitas mulheres se identificam e algo que eu quis explorar através das vizinhas de Harlow Street, que estão no auge da meia-idade, e, ao verem-se envolvidas numa tragédia na sua rua, têm de enfrentar os rumores interiores que há muito ignoram.

2. O seu romance de estreia, Instinto, foi um bestseller do The New York Times e uma escolha do Good Morning America Book Club, elogiado como «um thriller hábil e envolvente» (Washington Post) e «um olhar psicológico arrepiante sobre as partes obscuras e desconfortáveis da maternidade» (theSkimm). Qual foi a sensação de voltar a sua atenção para Rumores e como é que os temas deste novo livro se relacionam com o que escreveu em Instinto?

Rumores está, sem dúvida, no mesmo território de exploração do lado obscuro da maternidade e do casamento, mas numa fase da vida ligeiramente diferente daquela em que Blythe se encontrava em Instinto. As mulheres de Harlow Street estão na meia-idade, uma altura em que grande parte das suas vidas já se encontra determinada — as famílias, as carreiras, os estatutos socioeconómicos — e, no entanto, por razões diferentes, não estão satisfeitas. A janela de oportunidades e escolhas parece ter ficado para trás. Que opções de mudança são realisticamente possíveis para as mulheres nesta fase da vida? Estamos tão familiarizados (e talvez sejamos indulgentes) com a crise da meia-idade masculina, mas não pensamos da mesma forma em relação a esta fase da vida das mulheres. Pode uma mãe admitir que não se sente verdadeiramente preenchida com os seus filhos? E se não tiver recursos económicos para se afastar? Porque é julgada de forma diferente de um homem por perseguir o desejo sexual? Todas estas são questões que eu quis explorar.

3. Em Rumores, vai-se alternando a perspetiva narrativa entre quatro mulheres diferentes de um bairro abastado da Harlow Street — Whitney, Blair, Rebecca e Mara. Como foi alternar entre personagens e entrar na cabeça de cada uma delas? Sentiu-se atraída por alguma das personagens em particular?

Gostei muito de escrever, desta vez, a partir de quatro perspetivas diferentes, embora isso implique conseguir criar profundidade emocional para cada personagem em muito menos páginas do que tinha para Blythe em Instinto. Cada uma destas mulheres tem os seus próprios capítulos narrativos, mas também há cenas de uma festa num logradouro ao longo do livro, em que está toda a gente presente e saltamos da cabeça de uma personagem para a de outra. Estas cenas foram especialmente interessantes de escrever, no sentido em que as mulheres podiam interagir umas com as outras e evidenciar as suas diferenças e o que cada uma pensava das restantes. Todas elas — Whitney, Blair, Rebecca e Mara — são importantes para mim por diferentes razões. Mas admito que gostei mais de escrever a história de Mara (se tiver de escolher!), apesar de ela ser a mulher com quem tenho menos em comum nesta altura da minha vida; ela é a voyeur na rua, está na casa dos oitenta anos e faz uma reflexão sobre os acontecimentos da sua vida que a trouxeram até ali, enquanto observa a vida das outras mulheres à sua volta.

 

Livro de estreia de Ashley Audrain, Instinto foi bestseller imediato do The New York Times
Livro de estreia de Ashley Audrain, Instinto foi bestseller imediato do The New York Times

 

4. A epígrafe no início de Rumores cita Rachel Cusk numa entrevista ao The Globe and Mail: «O que eu sentia cada vez mais, no casamento e na maternidade, era o facto de ser mulher e ser feminista serem duas coisas diferentes e provavelmente irreconciliáveis.» Pode dizer-nos por que razão escolheu esta citação?

Deparei-me com esta citação numa análise profunda de Rachel Cusk, quando acabei de ler A Life’s Work, o seu livro de memórias sobre a maternidade, que provocou uma reação bastante cruel por parte dos leitores. Esta citação de uma entrevista reflete realmente as lutas internas que dei às personagens de Rumores, em particular às amigas Whitney e Blair. Uma está a tentar aceitar o suplício como mãe e esposa, que a deixou desvalorizada e sem rumo; a outra privilegiou os seus próprios desejos e vontades acima das expectativas dos outros, mas as consequências acabam por ser desastrosas. Muitas mulheres continuam a sacrificar-se de formas que os homens normalmente não têm de fazer para que a família funcione, e isto nem sempre parece ser uma escolha, mesmo que seja colocado dessa forma.

5. Na sua crítica ao livro, a autora Carley Fortune diz: «Ninguém entende a vida secreta das mulheres como Ashley Audrain.» O que a leva a escrever sobre o lado negro de ser mulher, esposa e mãe — incluindo a raiva, a vergonha e o desejo, ou os pensamentos velados que muitas mulheres têm medo de proferir em voz alta?

Sempre me intrigaram os papéis performativos de ser mulher — a forma como é suposto agirmos como mães, esposas e amigas, as coisas que é suposto dizermos e sentirmos, e as influências que sustentam tudo isto, mesmo para as mais liberais ou progressistas de entre nós. E estou tão interessada na mulher que subverte estas expectativas como na que se convence a não o fazer, mesmo com terríveis consequências. Penso que, enquanto leitores, estamos muitas vezes à procura de verdades sobre a experiência humana que se reflitam em nós. Essa validação surge na emoção de nos identificarmos com uma personagem que está a lutar com os mesmos desafios que nós, em especial quando se trata de algo que nos poderá fazer sentir vergonha, culpa ou algum tipo de julgamento. A raiva maternal de Whitney é um exemplo disso, pois penso que é um dos maiores tabus da maternidade. Isto foi também parte da minha motivação para escrever sobre as perdas gestacionais de Rebecca com tanto pormenor. Depois de eu própria ter sofrido abortos espontâneos, ocorreu-me que não tinha lido muito sobre o que se sente quando se passa por uma experiência dessas — normalmente é encoberta, ou não é abertamente abordada nas páginas dos livros ou no ecrã. Se escrevermos mais sobre o que essa perda realmente representa para uma mulher, talvez nos ajude a sentirmo-nos menos sozinhas quando passarmos por essa experiência.

 

Ashley Audrain vive em Toronto, onde trabalhou como diretora de publicidade da Penguin Books
Ashley Audrain vive em Toronto, onde trabalhou como diretora de publicidade da Penguin Books

 

6. Três das personagens principais são mulheres que estão a entrar na meia-idade. Estamos sempre a ouvir histórias sobre as crises da meia-idade dos homens, mas raramente falamos dos desafios emocionais das mulheres. De que forma se debatem as personagens com esta fase em particular das suas vidas — e o que a levou a explorar este assunto?

Tenho pensado muito sobre o que representa a crise da meia-idade para a atual geração de quarenta e poucos anos. Há algumas análises recentes brilhantes sobre este assunto, incluindo a adaptação para o ecrã do romance de Taffy Brodesser-Akner, Fleishman Is in Trouble, e o artigo de Jessica Grose, de março de 2023, no The New York Times, intitulado «This Isn’t What Millennial Middle Age Is Supposed to Look Like». Não há dúvida de que os millennials mais velhos (como eu) não estão a ter uma experiência de meia-idade idêntica à das gerações anteriores, nem, por conseguinte, enfrentam o mesmo tipo de problemas — principalmente porque não temos recursos para isso e passámos, durante toda a nossa vida adulta, por uma série de problemas sociais mais amplos.

Ainda assim, penso que a meia-idade não deixa de ser uma fase em que as mulheres fazem uma avaliação profunda sobre se somos ou não quem gostaríamos de ser nesta altura da vida. Muitas vezes, esta avaliação vem acompanhada da terrível realidade de que a possibilidade de mudança poderá já não existir. Quando entramos na meia-idade, os nossos filhos são mais novos do que nas gerações anteriores, temos mais dívidas e insegurança financeira, muitas estruturas familiares são agora diferentes e as oportunidades podem parecer bastante distantes. (Além disso, após a pandemia, muitas mães sentem-se como uma concha vazia do seu antigo eu, embora este livro se passe antes da pandemia.) Todas as personagens de Rumores se debatem com estas questões a algum nível — porque é que a minha vida não é como eu desejo e o que é que está em jogo se eu mudar alguma coisa?

7. Rumores também retrata a amizade feminina e as formas como a inveja, a insatisfação e a incompreensão podem colorir essas relações. O que despertou o seu interesse neste tema e o que quis evidenciar nas relações entre as quatro mulheres deste livro?

Em Instinto, gostei muito de escrever sobre a amizade única entre Gemma e Blythe, e sabia que queria aprofundar essa amizade entre mães no livro seguinte. A maternidade traz uma nova dimensão às nossas amizades femininas — muitas vezes, através dos relacionamentos dos nossos filhos, estabelecemos contacto com mulheres com quem não faríamos amizade de outra forma, e podemos acabar também por reforçar as amizades atuais. Todas estas amizades são, sem dúvida, uma tábua de salvação para nós, mas também é difícil não avaliarmos a forma como agimos enquanto mães em relação umas às outras e não compararmos a vida que estamos a construir. O que é que as nossas amigas tiveram na vida que nós não tivemos? Abandonaram as suas carreiras ou seguiram em frente na sua vida profissional, e de que é que abdicaram que nós não abdicámos? Porque é que os filhos delas têm mais sucesso do que os nossos? Acho que, se formos honestos connosco próprios, há um desequilíbrio de poder em quase todas as amizades. Claro que isto é mais do que óbvio — podemos invejar o afeto que observamos num casamento, ou o facto de uma amiga nossa nunca gritar com os filhos, como nós gritamos. Quis explorar isto através de Blair e de Whitney, mas também com Rebecca, que se sente como uma estranha na rua porque ainda não tem filhos, apesar de o tentar há anos e, por isso, sente-se posta de parte pelas outras duas mulheres.

 

Rumores é o segundo romance de Ashley Audrain
Rumores é o segundo romance de Ashley Audrain

 

8. Tem um talento especial para manter o interesse dos leitores. Quais são as suas táticas para criar suspense e expectativa?

Obrigada! Acho que isso se deve a eu ler e reler o que escrevo, repetidamente, até encontrar o equilíbrio certo naquilo que estou a dar ao leitor e quando. Penso que isto se aplica tanto às emoções das personagens como aos pontos do enredo. Em Rumores, brinquei muito com a mudança de linhas temporais, tanto nos acontecimentos como nos traços psicológicos de uma personagem, até os meus editores acharem que estava a funcionar na perfeição. Prefiro escrever capítulos mais curtos e penso que isto beneficia o ritmo (quero que o leitor diga «Oh, está bem, só mais um capítulo!» de cada vez que termina um). Talvez outra coisa benéfica seja o facto de eu não conhecer a história completa até estar a escrever — muitos dos elementos de suspense são coisas com que me surpreendo à medida que escrevo e, por isso, penso que o leitor vai sentir o mesmo.

9. Dedicou o livro a «todas as mães que estejam presas por um fio. E para todas as mulheres que tentam desesperadamente ser mães». Escreveu este livro enquanto mãe de duas crianças em confinamento. Pode falar sobre essa dedicatória?

Uma das partes mais importantes quando se publica um romance é a decisão sobre a dedicatória. Com o meu primeiro livro, soube de imediato que seria para os meus filhos — afinal, era um livro sobre maternidade, além de que comecei a escrevê-lo logo após o nascimento do meu filho. Ao início, tinha decidido dedicar-lhes também Rumores. Porém, no dia em que tinha de entregar a minha revisão final deste livro, sentei-me a olhar para o manuscrito — com um alívio absoluto! — e pensei no quão difícil fora escrever durante a pandemia, com muitos confinamentos e duas crianças em casa. Muitas mães poderão identificar-se com o facto de, nos últimos anos, se terem sentido como uma versão diferente (não tão boa) de si próprias em casa. Apercebi-me de que este é, realmente, um romance para estas mulheres — as mães que se aguentam por um fio, tanto naquela altura como agora. E, mais importante, para as mulheres que tentam desesperadamente ser mães, como é o caso da personagem Rebecca. Porque, mesmo nos dias mais difíceis da maternidade, reconheço o verdadeiro privilégio de poder ser mãe.

10. O que espera que os leitores retirem de Rumores?

Fico muito feliz quando os leitores de Instinto me dizem que o romance os ajudou a sentirem-se vistos de alguma forma. Por isso, espero que o mesmo aconteça com os leitores de Rumores — que valide as verdades e experiências das pessoas, de uma forma que nunca tenham sentido antes. Como escritora, não poderia pedir mais nada.

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